1. O Desafio de Enxergar a Criança Além do Caderno
Durante décadas, o sistema educacional alimentou o mito da "tábula rasa", tratando o estudante como uma folha em branco a ser preenchida por repetições mecânicas do "be-a-bá". No entanto, a educação contemporânea exige o desmonte dessa visão reducionista.
Garantir o direito de aprender na idade certa não é uma concessão burocrática, mas um imperativo ético e pedagógico que reconhece o estudante como um sujeito que pensa, questiona e reconstrói a lógica da escrita muito antes de dominar a caligrafia convencional. A nova Orientação Normativa nº 1 de 2026 da Secretaria Municipal de Educação (SME) de São Paulo surge como um marco divisor para a rede municipal — abrangendo as EMEFs, EMEFMs e CEUs — ao reafirmar que alfabetizar é, acima de tudo, legitimar o direito da criança de exercer sua inteligência e protagonismo desde o primeiro dia de aula.
2. A Alfabetização como Prática Social
A alfabetização, sob a ótica do Currículo da Cidade, transcende os limites do ambiente escolar para se consolidar como um processo inerentemente cognitivo e social. Antes mesmo do domínio técnico do alfabeto, os estudantes já realizam uma "leitura do mundo", interpretando os signos e as linguagens que estruturam a vida em sociedade.
Fundamentada na perspectiva psicogenética de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, a normativa estabelece que a linguagem é um lugar de interlocução. Não se trata apenas de decodificar fonemas, mas de inserir o sujeito ativo em práticas sociais onde a leitura e a escrita possuam funções reais. Segundo o documento:
"Alfabetização corresponde aos processos cognitivos que as crianças realizam para compreender o funcionamento do sistema de escrita alfabética, ao mesmo tempo em que compreendem o funcionamento da linguagem escrita em práticas sociais."
Nesse cenário, o professor atua como mediador de uma aprendizagem significativa, transformando a sala de aula em um espaço onde ler e escrever são ferramentas de participação cidadã e não apenas tarefas escolares vazias de sentido.
3. O "Direito de Errar": Escrever sem Saber Escrever Convencionalmente
Um dos pilares mais sofisticados da Orientação Normativa nº 1/2026 é a validação das "escritas não convencionais". O que o senso comum muitas vezes rotula como erro, a pedagogia moderna reconhece como conceitualização. As hipóteses formuladas pelos estudantes são janelas para sua lógica interna e são rigorosamente observáveis nas etapas que vivenciam até a apropriação do sistema alfabético.
Validar essas tentativas é garantir que o estudante se sinta encorajado a testar suas ideias e construir critérios próprios de categorização. O documento é enfático ao proteger esse processo:
"As crianças têm o direito de participar de muitas situações em que leiam e escrevam mesmo antes de saberem ler e escrever convencionalmente. Elas formulam hipóteses e as testam, constroem critérios e estabelecem relações para justificar suas escritas e leituras."
4. Matemática: Uma Linguagem para o Cotidiano
No Ciclo de Alfabetização, a Matemática é apresentada como uma linguagem essencial para a leitura e interpretação do mundo, presente em diversos contextos sociais e culturais. A normativa de 2026 propõe um deslocamento do ensino transmissivo para uma perspectiva investigativa, onde as representações pessoais do estudante são o ponto de partida para a construção do conhecimento formal.
O trabalho pedagógico deve integrar os eixos de Álgebra, Geometria, Grandezas e Medidas, Probabilidade e Estatística, e Números. Em vez de listas de exercícios repetitivos, o foco reside em ações de investigação que permitam aos estudantes explorar as cinco funções dos números naturais:
- Quantificar: para determinar quantidades em contextos reais;
- Ordenar: para estabelecer sequências e posições;
- Comparar: para identificar relações de magnitude;
- Medir: para utilizar unidades de medida de forma funcional;
- Codificar: para reconhecer números como identificadores sociais (CEP, telefones, placas).
5. As Quatro Situações Didáticas Inegociáveis
Para converter a teoria em prática diária, a rede municipal estabelece quatro situações didáticas fundamentais e inegociáveis. Elas sustentam o conceito de duplo-protagonismo: uma relação dialética onde o professor atua como leitor e escritor experiente, enquanto o estudante mobiliza seus saberes para resolver problemas reais de linguagem.
- Ler pelo professor: O docente atua como modelo, compartilhando comportamentos leitores e mediando o acesso a textos complexos que o estudante ainda não acessaria de forma autônoma.
- Ler por si mesmo: O estudante utiliza estratégias de antecipação e inferência para construir sentido, mesmo que ainda não domine a decodificação convencional.
- Escrever pelo professor: A criança dita o texto (produção oral com destino escrito), permitindo que ela foque na organização do gênero textual enquanto o professor materializa o registro.
- Escrever por si mesmo: O momento em que o sujeito da aprendizagem coloca suas hipóteses em jogo, testando a composição e a estrutura do sistema de escrita.
6. Metas Claras: O Cronograma do Sucesso Escolar
A Orientação Normativa nº 1/2026 não deixa margem para ambiguidades. Ela estabelece metas de aprendizagem que funcionam como uma promessa de cidadania para cada criança matriculada na rede municipal de São Paulo:
- Consolidação da hipótese de escrita alfabética: meta inegociável até o final do 1º ano.
- Alfabetização das crianças: garantia de domínio pleno até o final do 2º ano.
- Consolidação da alfabetização: fechamento do ciclo com competências robustas de leitura e escrita ao final do 3º ano.
7. Conclusão: O Futuro da Educação é Integral e Inclusivo
A alfabetização, conforme preconizado para 2026, é a espinha dorsal de uma Educação Integral, Equitativa e Inclusiva. Ela não se esgota na alfabetização linguística ou matemática; ela se expande para o direito inalienável às alfabetizações científica, cartográfica, artística, cultural, espacial e corporal.
Garantir um "ambiente alfabetizador" em cada EMEF, EMEFM e CEU de São Paulo significa criar espaços que transbordem materiais, desafios e interações que respeitem as especificidades da infância. Se a alfabetização é, de fato, a base para a cidadania, o compromisso da escola deve ser o de transformar cada sala de aula em um laboratório de pensamento, onde o respeito à inteligência do estudante seja a regra, e o acesso ao conhecimento, um direito plenamente exercido.


